Bíblia e Catequese
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18/10/2017 Therezinha Motta Lima da Cruz Bíblia e Catequese Gêneros literários e seu jeito de apresentar a verdade
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Percebemos com certa facilidade que cada gênero literário precisa ser lido e interpretado a seu modo. Isso acontece até com o nosso modo comum de falar. Um rapaz apaixonado pode dizer à namorada: depois que encontrei você não enxergo mais mulher alguma... E ninguém por isso vai levá-lo ao oculista, todo mundo entende que se trata de um exagero para afirmar a força do sentimento que se quer expressar. E nem seria o que chamamos de “mentira”, se ele estiver mesmo apaixonado.

Uma parábola expressa isso de forma interessante:

Em um reino cheio de corrupção, o rei estava dando uma festa. A Verdade resolveu ir lá e mostrar a todos o que de fato estava acontecendo. Já ouvimos a expressão “Verdade nua e crua”? Pois foi assim que ela se apresentou, mas não a deixaram entrar, acharam que estava escandalosa. Então ela achou que poderia ir com armas, um escudo, pronta para lutar. Ao se apresentar, perguntaram o seu nome. Ela disse que era Crítica (que  é a verdade preparada para o ataque). Também não a deixaram entrar porque ia estragar a festa. Então ela se preparou de outro jeito: se enfeitou bastante, com um lindo vestido, uma coroa de princesa. O guarda na porta, encantado, perguntou com que nome ela deveria ser anunciada. Ela disse: tenho vários nomes, pode me chamar de Fábula, Poesia, Parábola, Alegoria... E assim ela entrou e disse todas as verdades que precisavam ser ouvidas.

Ou seja: a verdade pode ter muitas roupas sem deixar de ser autêntica, desde que saibamos interpretar cada gênero literário adequadamente. Em se tratando da Bíblia, venerada como Escritura Sagrada, há pessoas que ficam zangadas quando alguém diz que esta ou aquela narração é poética, simbólica, e não exatamente uma descrição histórica dos fatos. Pensam que aí estaríamos negando a verdade do texto sagrado. Mas a Verdade, como mostra a parábola citada, não deixa de ser verdadeira porque mudou de roupa. Às vezes as pessoas perguntam com ar meio desanimado: Então é só poesia (ou imagem simbólica)? O que estaria errado nessa atitude é usar o “só”, como se a poesia fosse menos verdadeira, na hora de transmitir uma mensagem, do que um relato objetivo. Linguagem simbólica, poética, alegórica, dependendo do que estiver comunicando, não é “menos” verdade, é “mais”, porque é mais forte e vai além de um fato isolado. Dizemos que Deus é transcendente, ou seja, ultrapassa o que podemos perceber ou dizer. Linguagem poética também é transcendente, vai além do que cada palavra, noutro estilo literário, poderia transmitir.

Quando um texto é simbólico, ele está em geral mostrando coisas que acontecem sempre, não contando algo que ocorreu uma vez. É o que acontece com as parábolas que Jesus gostava tanto de usar. A história do filho pródigo, por exemplo, fala do amor com que Deus, o nosso grande Pai, está sempre disposto a nos acolher quando nos dispomos a voltar para Ele. A parábola do bom samaritano fala de pessoas que ainda hoje estão à nossa volta: feridos que precisam de ajuda, gente que se diz religiosa mas não ajuda os necessitados e gente que, seja qual for a sua origem, sabe ser irmão do próximo como Deus nos pede.

É fácil perceber isso nas narrações que já vêm identificadas como parábolas, mas há outros textos bíblicos que usam linguagem simbólica e às vezes as pessoas não percebem. Aí querem interpretar tudo ao pé da letra. Com isso muitas vezes chegam a afirmações difíceis de acreditar e, principalmente, perdem de vista o mais importante, que é a mensagem que o texto quis comunicar.

A Dei Verbum, documento do Concílio Vaticano II que trata da Bíblia, afirmou a importância de sabermos interpretar os gêneros literários da Escritura: “Pois a verdade é apresentada e expressa de maneiras diferentes nos textos que são de vários modos históricos ou proféticos ou poéticos, ou nos demais gêneros de expressão. Ora, é preciso que o intérprete pesquise o sentido que, em determinadas circunstâncias, o hagiógrafo, conforme a situação de seu tempo e sua cultura, quis exprimir e exprimiu por meio de gêneros literários então em uso.” (DV 12)

Mas, como a Bíblia é um livro sagrado, seria bom que o catequista começasse mostrando, em textos mais comuns (poesia, letras de música, histórias infantis, cenas simbólicas de cinema, fábulas etc), como a Verdade se apresenta debaixo de vestimentas variadas. Depois de perceber que a poesia, por exemplo, não é menos (é mais) verdade, estaremos todos mais preparados para descobrir na Bíblia a profundidade da mensagem de cada texto. E a mensagem é mais importante do que a forma literária com que ela se apresenta.

Como catequistas, estamos sendo preparados para interpretar em corretamente os diferentes estilos literários da Bíblia? Por onde poderíamos começar?   

Therezinha Motta Lima da Cruz   

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