Bíblia e Catequese
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23/08/2017 Therezinha Motta Lima da Cruz Bíblia e Catequese Bíblia encarnada na vida do povo
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Therezinha Motta Lima da Cruz

Pensando na Bíblia como Palavra de Deus, muitos poderiam imaginar uma voz vinda do céu e entender “profecia” apenas como previsão de futuro. Mas não foi bem esse o caminho que Deus escolheu para se revelar. A inspiração divina vem ligada a cada momento histórico que o povo está vivendo. É olhando a vida que, naquele tempo como ainda hoje, se pode perceber o que Deus está nos pedindo, nos ensinando, nos comunicando em cada situação. Provavelmente pensando em algo parecido, alguém expressou nesta parábola a necessidade de prestar atenção ao que acontece para de fato podermos nos comunicar com Deus:

Um homem chegou em casa e encontrou um bilhete onde Deus dizia que queria encontrar com ele no dia seguinte, indicando um caminho que levava ao alto de uma colina. O homem foi animado em busca desse encontro. No caminho, encontrou 3 pessoas: um cego que queria ser levado até a estrada principal para poder seguir em frente, uma mulher com o filho doente que lhe pediu para voltar à aldeia e chamar um médico e um menino que estava carregando um saco pesado demais para suas forças. Todos lhe pediram ajuda e ele até gostaria de fazer isso, mas não podia se atrasar no encontro com Deus e seguiu em frente. Esperou a tarde inteira no lugar marcado e Deus não veio. No dia seguinte, ao acordar, encontrou outro bilhete na mesa e ali Deus dizia: Que pena! Fui ao seu encontro três vezes ontem, mas você não me deu atenção... 

Na Bíblia, os “encontros com Deus” estão ligados a necessidades de cada situação que o povo vive. Moisés se sente chamado quando vê o sofrimento de seu povo. Os profetas falam a partir do que vêem acontecer à sua volta. Quando costumes de outros povos ameaçam a identidade religiosa do povo, os escritos reforçam a necessidade de rejeitar qualquer tipo de idolatria e manter a fidelidade às leis que ajudam a garantir o compromisso do povo com Deus. Fatos do passado são relembrados – e mesmo reinterpretados - quando algo no presente precisa ser corrigido.

Isso às vezes faz com que um texto bíblico diga até o contrário do que está em outras partes da Escritura: cada situação pode estar exigindo um tipo de reflexão diferente, ou o nível de compreensão e maturidade do povo pode permitir avanços que em outras situações não seriam aceitos. Paulo se refere a algo assim quando diz aos coríntios: “eu lhes dei leite para beber , e não alimento sólido, porque vocês não eram capazes” (1 Cor 3,2). O livro do Eclesiastes também se refere a situações diversas, que fazem perceber respostas diferentes, no capítulo 3, que começa dizendo: “Para tudo há um momento, e um tempo certo para cada coisa debaixo do céu.” 

Essa situação de vida que faz nascer o texto também atua hoje, num contexto diferente, na hora de interpretarmos o que a Escritura nos diz. A Bíblia nasceu encarnada na vida do povo que nos deixou essa preciosa herança e, ao ser lida por nós hoje, precisa ser vista em relação ao que estivermos vivendo agora. Uma frase interessante pode nos fazer pensar nesse processo:  todo livro tem dois autores, aquele que escreveu e aquele que agora está lendo.  Isso vale para qualquer livro. Assim como quem escreve está inspirado pelos questionamentos de seu tempo, de sua cultura, dos problemas e esperanças que está vivendo, aquele que lê é de certa forma convidado a perceber o que aquilo tem a ver com seus sentimentos, sua realidade e a sociedade que o cerca.  

Tudo isso nos mostra que, para entender o texto, precisamos conhecer o contexto em que ele nasceu. Isolar versículos, sem perceber o que estava acontecendo e sem colocar a mensagem em relação com o conjunto do que a Bíblia quer comunicar, pode levar a interpretações muito deturpadas da mensagem de fundo. Da mesma forma, ao ler um texto bíblico há uma pergunta fundamental: o que isso tem a ver com a nossa vida, nossa sociedade, nossas possibilidades e necessidades?   

Temos aí um livro muito especial, Dizemos que é “Palavra viva”. O que é “vivo” não está imobilizado, está aberto a novas abordagens, não esgotou o que pode comunicar. Então, a catequese precisa trabalhar vida e Bíblia como aspectos de uma conversa permanente que vai nos ajudar a perceber o que Deus nos quer dizer a cada momento.

E hoje, como a catequese prepararia cada um para perceber a Palavra de Deus encarnada na vida?

Therezinha Motta Lima da Cruz

Foi assessora nacional de catequese, possui vários livros publicados de Catequese e Ensino Religioso.

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